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DIREITOS HUMANOS
Investigação leva aos verdadeiros culpados do crime do bar Bodega

Em agosto de 1996, um crime estarreceu a cidade de São Paulo. O cenário foi o bar Bodega, em Moema, de propriedade dos atores da TV Globo Luiz Gustavo, Tato e Cássio Gabus Mendes. Foi ali, num ambiente de classe média alta, que os jovens José Renato Pousada e Adriana Ciola morreram por tiros desferidos à queima-roupa efetuados por assaltantes que invadiram o local. Um terceiro jovem, Milton Bertoline, também foi atingido, mas sobreviveu aos ferimentos.

Após recolher dinheiro e cheques do caixa e pertences dos clientes do bar, os 4 ladrões fugiram. A cidade vivia um clima de total insegurança em plena época pré-eleitoral, que atingia também bairros da classe média paulistana. Uma semana após o crime no Bodega, um rapaz foi morto em um assalto em Pinheiros, também na zona sul da capital.

O triste cenário de uma cidade acuada pela violência provocou reação de todos. Políticos interessados na eleição que se aproximava tiravam proveito dos fatos para bradar suas propostas antiviolência; a imprensa repercutia em detalhes a história de um crime com elementos de filme de cinema; e a população, revoltada, clamava por justiça.

A tia da jovem assassinada criou um movimento antiviolência chamado de “Reage São Paulo”, que contou com a adesão de figuras públicas.

Pressionada a dar uma satisfação urgente para a sociedade, a Polícia Civil, responsável pelas investigações, em quinze dias apresentou um suspeito, o então menor de idade Cleverson, pego roubando o carro de um vereador juntamente com seu comparsa, Natal.

Um carcereiro achou que o rapaz era muito parecido com o retrato falado de um dos assaltantes do Bar Bodega. Cleverson teria confessado o crime “espontaneamente”, acusando Natal e mais três vizinhos de cúmplices. Os cinco rapazes foram presos e o caso passou, sem maiores explicações, do 53º DP para o 15º DP, onde assumiu as investigações o delegado João Lopes Filho.

As vítimas e testemunhas não reconheceram com precisão os suspeitos, mas se sentiam pressionadas a fazê-lo. Diziam que os assaltantes eram brancos e mais velhos, enquanto os rapazes presos eram morenos ou pardos e mais jovens. O segurança do Bar Bodega, Vivaldo, reconheceu o suspeito Natal não como criminoso, mas como seu ex-vizinho na Baixada do Glicério, o que o levou a ser indiciado como cúmplice do crime.

Vivaldo livrou-se da prisão por não ter sido reconhecido por ninguém. Nesse meio tempo, os presos foram apresentados à imprensa, como era praxe na época, algemados e com placas penduradas no corpo, expostos às perguntas dos repórteres e flashes dos fotógrafos.

Mesmo com essas prisões, as investigações continuaram, pois era preciso apreender os bens subtraídos e a arma do crime. Em pouco tempo, mais 4 pessoas foram presas, totalizando, assim, 9 “culpados”.

O segurança Vivaldo continuou revoltado, pois nenhum dos presos se assemelhava aos quatro assaltantes que estiveram no Bodega naquela noite fatídica. E para esclarecer a verdade do caso, resolveu pedir a um colega seu, policial do serviço reservado da PM - que investiga crimes envolvendo policiais - que investigasse o latrocínio.

A investigação paralela levou o caso para um novo rumo. Descobriu-se que uma quadrilha que agia no centro de São Paulo era oriunda da Baixada do Glicério, de onde moradores locais chegaram a ligar para a Polícia Civil denunciando os verdadeiros envolvidos... Em vão.

As informações da investigação extra-oficial foram levadas ao Ministério Público do Estado de São Paulo e chegaram às mãos de um Promotor de Justiça, que então se reuniu com os policiais do reservado e testemunhas do caso, em sua maioria funcionários do Bar Bodega, que temiam por suas vidas, já que os autores estavam em liberdade e poderiam matá-los como “queima de arquivo”. Também estavam revoltados com o tratamento policial dispensado ao segurança Vivaldo.

Diante de tantas contradições, o promotor iniciou sua própria investigação, que incluiu encontros com o perito criminal do caso e outras testemunhas, colhendo novas informações sobre a quadrilha que atuava na região central de São Paulo. Enquanto isso, a Polícia Civil concluiu o inquérito e apresentou-o ao MP, que tinha naquele momento três alternativas: aceitar os resultados das investigações da Polícia Civil e oferecer a denúncia, arquivar o inquérito ou pedir que a investigação continuasse, com a soltura dos nove suspeitos – e esta, apesar de ser a mais espinhosa, face à enorme pressão da opinião pública, foi a opção escolhida por parecer a correta diante de todos os elementos que se apresentavam.

A surpresa na decisão do promotor originou uma entrevista coletiva para tentar esclarecer a uma imprensa atônita os motivos que levaram o Ministério Público a pedir a soltura dos supostos culpados.

As investigações oficiais do caso, a pedido do Ministério Público, passaram para o DHPP – Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa – da Polícia Civil, reconhecido como um órgão de extrema competência técnica, que foi atrás dos indícios das investigações do reservado da PM e do promotor. Em pouco tempo, os reais culpados foram presos e os bens subtraídos no assalto, recuperados.

Dos seis envolvidos, cinco foram condenados em 2007 e estão cumprindo pena. O outro fugiu.

O caso se destacou nacionalmente como símbolo de respeito aos Direitos Humanos e deu origem ao livro “Crime de Imprensa”, do jornalista Carlos Dorneles.

 
     
         
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